Exército de nós mesmos

Rei Arthur – A Lenda da Espada (King Arthur – Legend of the Sword, 2017, direção de Guy Ritchie)
Estreia no Brasil: 18/05/2017

Por Rodrigo Oliveira

Alguns filmes sobre o Rei Arthur e a espada Excalibur já foram produzidos ao longo de décadas. Aos que se esquivam de Rei Arthur – A Lenda da Espada por anteverem um possível desgaste na história, antecipo que a forma como Guy Ritchie (Snatch – Porcos e Diamantes, 2000 e Rock’n’Rolla – A Grande Roubada, 2008) impõe a sua assinatura imagética no longa entusiasma um bocado.

Arthur (Charlie Hunnam, da série Sons of Anarchy) é um jovem que vive à margem, percorrendo becos com sua gangue, mas ao tocar a espada Excalibur, ele descobre imediatamente que o seu destino está atrelado ao poder do magnífico objeto que o ajudará a lutar contra Vortigern (Jude Law), responsável por arruinar a sua família.

A altivez das cenas de combate, o som da fúria manifestada que ecoa rumo ao oponente e a meticulosidade dos ruídos a cada golpe de espada impressionam, pois somados esses elementos tornam o longa um registro de imensa exaltação, que só não é exemplar devido a paleta de cores (tons escuros) não se misturar à cinematografia tão vivaz.

Outros momentos nos afetam devido à plasticidade, vide a cena em que Vortigern elimina a vida da própria filha em troca de incomensurável poder para combater Arthur; é como se fôssemos transportados a Hamlet no instante em que Ofélia morre afogada – a distinção é que na tragédia de William Shakespeare isso é apresentado como um provável suicídio.

O filme de Ritchie mostra que inúmeras vezes alimentamos os nossos inimigos interiores, cerceando até mesmo o que não nos cabe, como no caso em que Arthur em seu primeiro contato cria resistência à espada e consequentemente ao poder que ela pode conceder-lhe. Quando mantém Excalibur sob controle, a sua existência enfim possui um significado; ele passa a, de fato, ter um lugar no mundo.

Em seu papel de líder nato, o protagonista assume o posto que é seu por direito, bem como Guy Ritchie que dá vida a um universo desvairado, onde a aventura começa ao associarmos essa história tão ancestral às nossas lutas cotidianas da contemporaneidade, onde se estabelece o crivo de que tal conexão é atemporal quando constatamos, que independente da época, somos o exército de nós mesmos.

Nota: 8

Padecimento sem gradações

Um Homem de Família (A Family Man, 2016, direção de Mark Williams)
Estreia no Brasil: 18/05/2017


Por Rodrigo Oliveira

O trabalho pode nos tragar a ponto de desestruturar outras esferas de nossas vidas. Um Homem de Família, estreia de Mark Williams na direção, toca neste ponto e em alguns outros, mas infelizmente o faz apostando na exacerbação da moralidade a partir da reabilitação de um indivíduo pelo caminho da dor.

Dane Jensen (Gerard Butler) trabalha como headhunter de uma grande empresa em Chicago, tendo como característica um discurso persuasivo para cumprir metas estipuladas e faturar generosas comissões. Todavia, seu lado workaholic é afetado após descobrir que o filho Ryan (Max Jenkins) é portador de leucemia.

Como se já não fosse o suficiente um chefe autocrata, encarnado por Willem Dafoe, Jensen terá que lidar com o estremecimento de sua relação com a esposa Elise (Gretchen Mol), causado pela enfermidade da criança, que além disso torna o seu cotidiano no trabalho implacável.

O modo como as corporações abusam das habilidades de seus funcionários, os meios escusos para conseguir objetivos dentro da empresa e a indisponibilidade para a família, demonizam não apenas o protagonista, mas todo o sistema pelo qual a narrativa transita. Entretanto, o choque se concentra na mudança imediata de Jensen, carregada de extrema polarização.

A tentativa de humanização do personagem contamina a história, visto que vilanizá-lo soa apenas como um subterfúgio para o espectador se apiedar da sequência de amargores que ele irá encarar. Contudo, temas como a ética, a maledicência corporativa e as escassas oportunidades do mercado de trabalho frente a duvidosos critérios de seleção, até então questionados, são dissipados devido à transformação de Jensen em um herói imaculado.

“Câncer não é uma negocição”, afirma Dr. Savraj Singh (Anupam Kher) em breve cena do filme. A impressão que fica é a de que Williams espalha o seu próprio câncer, lê-se sua inexperiência como diretor, a partir do tom manipulador de sua obra, utilizando-o como intrujice aos irrefletidos. Resta a comiseração por parte dos que detectam neste um registro parco de acuidade, que se indispõe cada vez mais ao exibir o seu padecimento sem gradações.

Nota: 4.5

Encontro de gerações

Burlesque (Idem, 2010, direção de Steven Antin)

Por Rodrigo Oliveira

Ao contrário do que foi veiculado na mídia na época de seu lançamento, Burlesque, musical escrito e dirigido por Steven Antin, não é apenas uma tentativa genérica do que num conjunto sequencial remeteria a uma compilação de videoclipes. Além de boas músicas interpretadas por Christina Aguilera, o longa-metragem possui elementos característicos de comédias românticas, isto é, um casal cativante em meio a conflitos bem dosados pelo diretor. Este último apresenta um filme sem grande ousadia, porém funcional.

Christina Aguilera dá vida a Ali Marilyn Rose, garota que abandona o Estado de Iowa em busca de uma oportunidade em Los Angeles. Dona de uma voz imponente, sonha em ganhar a vida cantando. À procura de trabalho, ela se depara com Burlesque, um híbrido de bar e cabaré que promove apresentações de dança. A moça decide se infiltrar no lugar para conquistar a atenção de Tess (Cher, vencedora do Oscar por Feitiço da Lua, 1987), dona do estabelecimento, nem que para isso precise trabalhar de graça na função de garçonete.

A protagonista passa por sérias dificuldades, porém encontra apoio nos braços do compositor e barman Jack (Cam Gigandet), que a acolhe em seu apartamento. No decorrer do filme, ela ganha a confiança de Tess, a amizade de Sean (Stanley Tucci), desperta o olhar de cobiça do empresário Marcus (Eric Dane) e disputa espaço com seu maior desafeto, Nikki (Kristen Bell), principal dançarina da casa até a sua chegada.

Na pele de Ali, Christina Aguilera convence em boa parte da obra ao conseguir tornar críveis os anseios de Ali; anseios esses que poderiam se dissolver facilmente ao se transformarem em desejos idiotizados de uma garota caipira, mas a cantora não compromete com sua atuação, visto também que o papel não é de grande complexidade.

Em termos musicais, o longa é de uma agradabilidade mais elevada, devido ao inegável talento de Aguilera como vocalista e graças a escolha de repertório que inclui canções como Something’s Got A Hold On Me e Tough Lover, de Etta James (principal influência musical da cantora), que ganharam roupagem pop eletrizante, bem ao clima do filme.

Burlesque nos permite desfrutar do encontro de vozes de duas gerações distintas. De um lado, Cher, a veterana com uma carreira bem-sucedida na música e no cinema; do outro, Christina Aguilera, famosa por sua potência vocal. Resta saber se, assim como fez Cher, a cantora se renderá aos encantos da sétima arte, e se sairá em busca de novas empreitadas e, por que não, de novos êxitos.

Nota: 6

Luto e espiritismo

Personal Shopper (Idem, 2016, direção de Olivier Assayas)
Estreia no Brasil: 09/03/2017

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Por Thais Sawada

A parceria entre o diretor Olivier Assayas e a atriz Kristen Stewart em Acima das Nuvens (2014) foi muito elogiada, rendendo a ela o César – considerado o Oscar francês – de melhor atriz coadjuvante. Agora, eles repetem a dupla em Personal Shopper, filme que concorreu à Palma de Ouro e levou o prêmio de direção no Festival Internacional de Cinema de Cannes, mas que teve uma recepção bastante negativa, sendo vaiado em sua primeira sessão.

No longa, Maureen (Stewart) é uma médium que vive em Paris e, ainda abalada pela morte de seu irmão gêmeo Lewis, aguarda um sinal deste – como eles haviam combinado que o primeiro a falecer faria. Assim, ela passa dias na antiga casa de Lewis, na esperança de que ele lhe dê uma prova de que há vida após a morte. Para se manter lá, ela trabalha como compradora de roupas e acessórios para uma celebridade, enquanto o seu namorado insiste que ela vá morar com ele em outro país e pare de esperar por algo que parece improvável de acontecer.

Em Personal Shopper, o espectador acompanha o dia a dia de uma Maureen que não sabe exatamente no que acreditar, mas que também se recusa a perder as esperanças. O seu cotidiano, no entanto, começa a mudar quando ela se depara com o perturbador espectro de uma mulher na casa de seu irmão e passa a receber misteriosas mensagens de texto em seu celular, de um número desconhecido que recusa se identificar.

A partir de então, o que poderia ser um instigante filme de suspense acaba tendo passagens um tanto entediantes, com longas cenas focadas apenas em trocas de mensagens e compras de roupas. Em certo momento, é como se o desconhecido começasse a tomar o papel de confidente de Maureen.

Por outro lado, há momentos que prendem a atenção da plateia, deixando-a ansiosa para saber o desenrolar da trama. O problema é que muitas vezes esse desenrolar não é tão empolgante quanto o esperado. O desvendamento de um crime, por exemplo, é um tanto previsível e revelado de maneira pouco surpreendente.

Contudo, Stewart entrega uma boa atuação, fazendo transparecer as inseguranças e ansiedades da personagem. A mistura de drama, suspense e terror – as cenas com espíritos são arrepiantes e muito bem feitas – também funciona e o desfecho foge do comum, deixando perguntas abertas e incitando a reflexão do próprio espectador. Portanto, Personal Shopper pode não ser o melhor trabalho de Assayas, deixando a desejar em vários pontos, mas tem seus méritos.

Nota: 6

Oscar 2017 – Vencedores e apostas

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Por Rodrigo Oliveira

Constrangedora e lamentável, a 89ª edição do Oscar foi precisamente isso, devido a seus sucessivos equívocos. Saliento que não me refiro apenas à troca de envelopes na categoria mais importante da noite, mas também às refutáveis escolhas da Academia.

Premiar Moonlight – Sob a Luz do Luar como Melhor Filme foi o ato mais grotesco que os votantes poderiam cometer. Longa-metragem evocativo e imageticamente pretensioso, imerso em uma narrativa repleta de nulidades. Pensando no contexto atual o filme é puro hype; já enquanto cinema, a obra apenas aclimata causos mal engendrados. Considero-o um grande engodo. Essa escolha viola, em especial, os entendedores e leais amantes do cinema estadunidense.

Não estenderei mais o meu discurso de enorme decepção, por isso segue a minha lista de apostas. Ressalto que não previ os ganhadores das categorias de curtas-metragens e documentários de longa por não ter acesso a todo o material indicado.

Filme: Moonlight – Sob a Luz do Luar (apostei em La La Land – Cantando Estações)
Diretor: Damien Chazelle, por La La Land – Cantando Estações
Ator: Casey Affleck, por Manchester à Beira-Mar
Atriz: Emma Stone, por La La Land – Cantando Estações
Ator Coadjuvante: Mahershala Ali, por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Atriz Coadjuvante: Viola Davis, por Um Limite Entre Nós
Roteiro Original: Manchester à Beira-Mar, Kenneth Lonergan  (apostei em La La Land – Cantando Estações)
Roteiro Adaptado: Moonlight – Sob a Luz do Luar, Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney
Filme Estrangeiro: O Apartamento
Animação: Zootopia – Essa Cidade é o Bicho
Fotografia: La La Land – Cantando Estações, Linus Sandgren
Montagem: Até o Último Homem, John Gilbert (apostei em La La Land – Cantando Estações)
Direção de Arte: La La Land – Cantando Estações, David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco
Figurino: Animais Fantásticos e Onde Habitam, Colleen Atwood (apostei em Jackie)
Trilha Sonora Original: La La Land – Cantando Estações, Justin Hurwitz
Canção Original: City of Stars, de La La Land – Cantando Estações, Benj Pasek e Justin Paul (letra); Justin Hurwitz (música)
Mixagem de Som: Até o Último Homem, Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace (apostei em La La Land – Cantando Estações)
Edição de Efeitos Sonoros: A Chegada, Sylvain Bellemare (apostei em La La Land – Cantando Estações)
Efeitos Visuais: Mogli – O Menino Lobo, Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon
Maquiagem e Penteado: Esquadrão Suicida, Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson

Agora a minha famigerada síntese do melhor e do pior da noite.

Momento predileto

best-moment

Kenneth Lonergan levando a estatueta dourada por seu lindo roteiro original. Manchester à Beira-Mar é uma obra-prima; filme cuja grandeza é potencializada pela virtuosidade de cada diálogo e rubrica ali integrante.

Momento decepcionante

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Emma Stone exibe uma atuação correta em La La Land – Cantando Estações. A sua doçura conta pontos a seu favor, mas ganhar o prêmio em uma categoria onde Isabelle Huppert compõe o time de indicadas é inconcebível.

special-moment

Num ano em que apostei todas as fichas em La La Land – Cantando Estações e o descontentamento dominou a noite, ao menos para mim, só me resta terminar esse post exibindo um outro momento lindo, a presença de Michael J. Fox, o imorredouro Marty McFly, do filme De Volta Para o Futuro.

A vantagem de testemunhar uma premiação tão execrável, excluindo alguns raros acontecimentos, é pensar que em 2018 será melhor. Ou esse ano marca o começo do declínio absoluto da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas?

A trajetória de um gângster

A Lei da Noite (Live by Night, 2016, direção de Ben Affleck)
Estreia no Brasil: 23/02/2017

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Por Thais Sawada

Com o intuito de prestar uma homenagem aos filmes de gângsteres da década de 1930, A Lei da Noite, baseado no livro homônimo de Dennis Lehane, conta a história de Joe Coughlin (Ben Affleck), um fora da lei filho de um capitão de polícia de Boston (Brendan Gleeson), que acaba se envolvendo com a máfia. Ambientado nos anos 20, o longa se passa em meio à Lei Seca americana – período em que era proibida toda a fabricação, comércio, transporte, exportação e importação de bebidas alcoólicas.

Assim, quando o mafioso Albert White (Robert Glenister) descobre que sua amante (Sienna Miller) mantinha um relacionamento secreto com Joe, ele não hesita em puni-los. Joe, então, une-se a Maso Pescatore (Remo Girone) e à máfia italiana, procurando vingança. A partir daí, ele torna-se o responsável pelas atividades ilegais do grupo na costa da Flórida, onde conhece Graciela (Zoe Saldana) e Loretta (Elle Fanning) – esta, filha do chefe Figgs (Chris Cooper). Durante a sua ascensão, Joe também se depara com rivalidades e confrontos com a Ku Klux Klan.

Assim, o espectador acompanha a trajetória de Joe. A história é interessante, com boas cenas de ação, e toda a ambientação, mostrando os Estados Unidos da década de 20, é um ponto positivo. A fotografia e o figurino merecem destaque, recriando a época com muita eficácia.

Entretanto, apesar de começar em um bom ritmo, A Lei da Noite esmaece no decorrer da trama. Os vários arcos e a grande quantidade de diálogos fazem com que o filme fique longo e cansativo. Personagens que poderiam ser bem explorados, são deixados de lado, como Graciela, que soa promissora em um primeiro momento, mas perde espaço na trama. O bom elenco, portanto, poderia ter sido melhor utilizado. Além disso, a própria premissa da vingança que Joe busca parece ser esquecida durante boa parte da obra.

Ben Affleck é aqui diretor, roteirista e protagonista. Em termos de atuação, seu trabalho não surpreende, mostrando uma certa falta de emoção e carisma. Mas, se Affleck por vezes deixa a desejar como ator, seu histórico mostra que o talento na direção, contudo, é inegável. Argo (2012), por exemplo, recebeu diversas premiações – inclusive o Oscar de Melhor Filme e o Globo de Ouro de Melhor Diretor. Infelizmente, A Lei da Noite, ao contrário do esperado, não alcançou as expectativas, deixando a sensação de que poderia ser muito mais do que apenas um filme interessante, mas que não ficará na memória.

Nota: 5

Oscar 2017 – Prevendo os vencedores

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Por Rodrigo Oliveira

A ansiedade toma conta dos cinéfilos mundo afora às vésperas do Oscar. Esse ano não seria diferente, pois a premiação que ocorrerá nesse domingo, 26.02, chega repleta de surpresas, algumas delas não muito positivas, como acontece quase sempre.

A 89ª edição resolveu reparar uma ausência tão discutida há um ano. Para quem não se lembra, a festa anterior foi envolta em polêmica devido à falta de profissionais negros entre os nomeados. Contudo, 2017 chega para exibir um quadro distinto, visto que filmes como Um Limite Entre Nós, Moonlight – Sob a Luz do Luar e Estrelas Além do Tempo, todos com elenco principal composto por atores negros, conseguiram espaço na categoria principal.

Em contrapartida, algumas ausências foram sentidas e destacarei três que considero inadmissíveis. Pensar em A Chegada sem a protagonista absoluta defendida por Amy Adams é algo impossível, não dá para dissociar. Não sou o maior admirador desse trabalho específico da atriz, mas acho que Meryl Streep ocupa um lugar que deveria ser de Adams na lista das cinco finalistas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas também pecou ao ignorar a animação Procurando Dory. Munido de uma história bem desenvolvida e personagens cativantes, o filme ainda prima pelo selo de qualidade Pixar, que dispensa apresentações; é no mínimo revoltante a obra ser esnobada dessa forma.

Por fim, na categoria que contempla as atuações masculinas num papel principal, o nome de Joel Edgerton não aparece entre as nomeações. O ator apresenta um trabalho de construção sutil, mas ao mesmo tempo bem delineado em Loving, belo filme sobre direitos civis, que deveria ter recebido mais atenção por parte dos membros votantes.

A festa desse ano fica a cargo do comediante e apresentador Jimmy Kimmel, que faz sua estreia no Oscar. Tendo como base o seu desempenho no Emmy Awards do ano passado, teremos uma performance não muito distinta da de Chris Rock, que esteve à frente da premiação de cinema em 2016. Portanto, um Oscar com um extenso monólogo de abertura e muita zombaria de distintos apelos nos aguarda. Já bateu saudade das edições comandadas por Hugh Jackman e Neil Patrick Harris, com números musicais divertidos e bem elaborados.

Disponibilizo abaixo as minhas apostas, todas seguidas de comentários. Ressalto que não incluo as categorias de curta-metragem, curta de animação e documentário tanto de longa quanto de curta-metragem, porque não tive acesso a todos os materiais.

filme

Melhor Filme

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion – Uma Jornada Para Casa
Moonlight – Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land – Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece: Manchester à Beira-Mar
Quem eu gostaria que ganhasse:
Manchester à Beira-Mar

A quantidade de prêmios que La La Land – Cantando Estações vem colecionando já o aponta como franco favorito à estatueta. Nada mais coeso que em tempos sombrios, ocasionados pela Era Trump, a Academia opte pelo escapismo do filme musical.

diretor

Melhor Diretor

Dennis Villeneuve, por A Chegada
Mel Gibson, por Até o Último Homem
Damien Chazelle, por La La Land – Cantando Estações
Kenneth Lonergan, por Manchester à Beira-Mar
Barry Jenkins, por Moonlight – Sob a Luz do Luar

Quem ganha: Damien Chazelle
Quem merece:
Kenneth Lonergan
Quem eu gostaria que ganhasse: Kenneth Lonergan

Com Whiplash – Em Busca da Perfeição, Damien Chazelle provou uma competência técnica marcante; isso se repete no plano sequência do início de La La Land – Cantando Estações. Com essa demonstração exibida logo no começo do longa, o jovem diretor revela ser minimamente merecedor do prêmio. Acho o trabalho de Kenneth Lonergan muito mais denso e complexo, mas Chazelle será o vencedor da categoria.

ator

Melhor Ator

Casey Affleck, por Manchester à Beira-Mar
Denzel Washington, por Um Limite Entre Nós
Ryan Gosling, por La La Land – Cantando Estações
Andrew Garfield, por Até o Último Homem
Viggo Mortensen, por Capitão Fantástico

Quem ganha: Casey Affleck
Quem merece: Casey Affleck
Quem eu gostaria que ganhasse: Casey Affleck

A maestria do trabalho de Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar é difícil de ser compreendida, justamente por ser um personagem interiorizado ao extremo e impregnado de sutilezas. Esse é o típico caso onde o menos é mais. E aqui o menos é avassalador. Mesmo perdendo o SAG para Denzel Washington, acredito que o Oscar não está fora do alcance de Affleck, visto que todos os outros prêmios foram parar em suas mãos.

atriz

Melhor Atriz

Natalie Portman, por Jackie
Emma Stone, por La La Land – Cantando Estações
Meryl Streep, por Florence – Quem é Essa Mulher?
Ruth Negga, por Loving
Isabelle Huppert, por Elle

Quem ganha: Emma Stone
Quem merece:
Isabelle Huppert
Quem eu gostaria que ganhasse:
Isabelle Huppert

A ausência de Elle na categoria de Melhor Filme Estrangeiro prova que a Academia tem certa resistência à obra. Esse fator desabilita a vitória de Isabelle Huppert. Uma pena ver a atriz perder o prêmio para Emma Stone, em atuação encantadora, mas sem o viço incomparável de Huppert, sempre excelente.

ator-coadjuvante

Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali, por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Jeff Bridges, por A Qualquer Custo
Lucas Hedges, por Manchester à Beira-Mar
Dev Patel, por Lion – Uma Jornada Para Casa
Michael Shannon, por Animais Noturnos

Quem ganha: Mahershala Ali
Quem merece:
Lucas Hedges
Quem eu gostaria que ganhasse:
Lucas Hedges

Acho a atuação de Mahershala Ali um tanto irregular em Moonlight – Sob a Luz do Luar, porém ele tem a seu favor o fato de estar em um filme cultuado pela crítica. Já o trabalho de Lucas Hedges merece elogios sem ressalvas, por transitar pelos mais variados temperamentos na pele de Patrick.

atriz-coadjuvante

Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis, por Um Limite Entre Nós
Naomi Harris, por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Nicole Kidman, por Lion – Uma Jornada Para Casa
Octavia Spencer, por Estrelas Além do Tempo
Michelle Williams, por Manchester à Beira-Mar

Quem ganha: Viola Davis
Quem merece: Michelle Williams
Quem eu gostaria que ganhasse: Michelle Williams

Analisando, até então, o histórico de premiações, é dada como certa a vitória de Viola Davis. Porém, Michelle Williams é responsável pelo momento ápice do filme de Lonergan, onde tudo o que estava encalacrado vem à tona. A sua emoção genuína entrega ao público um resultado consternador.

roteiro-original

Melhor Roteiro Original

La La Land – Cantando Estações, Damien Chazelle
Manchester à Beira-Mar, Kenneth Lonergan
A Qualquer Custo
, Taylor Sheridan
O Lagosta
, Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou
20th Century Women, Mike Mills

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece: Manchester à Beira-Mar
Quem eu gostaria que ganhasse: Manchester à Beira-Mar

Será um desprazer presenciar a vitória de Chazelle nessa categoria. Nada contra La La Land – Cantando Estações, mas tendo Manchester à Beira-Mar na disputa, o roteiro do musical não possui sequer uma sobrevida se comparado à estruturação naturalista dos diálogos do filme de Kenneth Lonergan.

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Melhor Roteiro Adaptado

Moonlight – Sob a Luz do Luar, Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney
Lion – Uma Jornada Para Casa, Luke Davies
Um Limite Entre Nós, August Wilson
Estrelas Além do Tempo, Allison Schroeder e Theodore Melfi
A Chegada, Eric Heisserer

Quem ganha: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Quem merece:
Um Limite Entre Nós
Quem eu gostaria que ganhasse:
Um Limite Entre Nós

Considero essa a aposta mais arriscada. Moonlight – Sob a Luz do Luar e A Chegada são os filmes com maior chance nessa categoria, mas optei pelo primeiro visto a estima que os profissionais do meio e a crítica tem pelo longa, para mim incensado ao extremo. August Wilson fez um trabalho esmerado em Um Limite Entre Nós, mas deve passar despercebido na premiação.

filme-estrangeiro

Melhor Filme Estrangeiro

Terra de Minas (Dinamarca)
Um Homem Chamado Ove (Suécia)
O Apartamento (Irã)
Tanna (Austrália)
Toni Erdmann (Alemanha)

Quem ganha: O Apartamento
Quem merece:
Um Homem Chamado Ove
Quem eu gostaria que ganhasse:
Um Homem Chamado Ove

Em 2012, Asghar Farhadi venceu esse prêmio pelo filme A Separação, levando um Oscar para o Irã. Esse ano a probabilidade desse feito acontecer novamente é grande, a não ser que a Academia perca o resto de seu bom senso ao entregar o Oscar para o néscio Toni Erdmann.

animacao

Melhor Animação

Kubo e as Cordas Mágicas
Moana – Um Mar de Aventuras
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia – Essa Cidade é o Bicho

Quem ganha: Zootopia – Essa Cidade é o Bicho
Quem merece: Minha Vida de Abobrinha
Quem eu gostaria que ganhasse:
Minha Vida de Abobrinha

Após vencer a categoria de Melhor Longa-Metragem no Annie Awards, Zootopia – Essa Cidade é o Bicho já desponta como favorito, porém nada me surpreendeu mais do que o trabalho em stop motion de Minha Vida de Abobrinha, definitivamente o melhor dos cinco.

fotografia

Melhor Fotografia

A Chegada, Bradford Young
La La Land – Cantando Estações, Linus Sandgren
Moonlight – Sob a Luz do Luar, James Laxton
Silêncio, Rodrigo Prieto
Lion – Uma Jornada Para Casa, Greig Fraser

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
La La Land – Cantando Estações

O plano sequência do início de La La Land – Cantando Estações já diz a que veio. Se tem algo que se destaca é a cena inicial, mas a fotografia mantém o alto nível de produção até em partes tecnicamente mais simples, como as com planos abertos, que ainda assim captam muito bem os deslocamentos durante os números musicais, devido à precisão do trabalho de movimentação de câmera. Linus Sandgren tem seu Oscar garantido.

edicao

Melhor Montagem

A Chegada, Joe Walker
Até o Último Homem, John Gilbert
A Qualquer Custo, Jake Roberts
La La Land – Cantando Estações, Tom Cross
Moonlight – Sob a Luz do Luar, Nate Sanders e Joi McMillon

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
A Qualquer Custo

O dinamismo de muitas cenas de La La Land – Cantando Estações é possibilitado pela montagem, ela dita o ritmo desses fragmentos do filme. Esse prêmio é, de fato, merecido. Nessa categoria não tem pra ninguém! Tom Cross ganhará o seu segundo Oscar, após ter vencido o prêmio por Whiplash – Em Busca da Perfeição.

direcao-de-arte

Melhor Direção de Arte

A Chegada, Patrice Vermette (Design de Produção); Paul Hotte (Decorador de Set)
Animais Fantásticos e Onde Habitam, Stuart Craig (Design de Produção); Anna Pinnock (Decoradora de Set)
Ave, César!, Jess Gonchor (Design de Produção); Nancy Haigh (Decoradora de Set)
La La Land – Cantando Estações, David Wasco (Design de Produção); Sandy Reynolds-Wasco (Decoradora de Set)
Passageiros, Guy Hendrix Dyas (Design de Produção); Gene Serdena (Decorador de Set)

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Quem eu gostaria que ganhasse:
Animais Fantásticos e Onde Habitam

Referenciar os musicais clássicos trazendo um frescor para essa ambiência tão venerada não é nada fácil, mas La La Land – Cantando Estações consegue isso graças à singularidade aparente mesmo ao transitar por códigos de outrora. Gosto do resultado apresentado no filme musical, mas a suntuosidade de Animais Fantásticos e Onde Habitam é imbatível, portanto deveria levar o prêmio.

figurino

Melhor Figurino

Aliados, Joanna Johnston
Animais Fantásticos e Onde Habitam, Colleen Atwood
Florence – Quem é Essa Mulher?, Consolata Boyle
Jackie, Madeline Fontaine
La La Land – Cantando Estações, Mary Zophres

Quem ganha: Jackie
Quem merece:
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Quem eu gostaria que ganhasse:
Animais Fantásticos e Onde Habitam

Não há uma indumentária sequer em Jackie que não auxilie na reconstituição da época; por ser tão fundamental nesse filme, o figurino de Madeline Fontaine sairá vencedor. Contudo, ainda acho o trabalho presente no universo fantástico do filme protagonizado por Eddie Redmayne mais pomposo.

trilha-sonora

Melhor Trilha Sonora

Jackie, Mica Levi
La La Land – Cantando Estações, Justin Hurwitz
Moonlight – Sob a Luz do Luar, Nicholas Britell
Passageiros, Thomas Newman
Lion – Uma Jornada Para Casa, Dustin O’Halloran and Hauschka

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
La La Land – Cantando Estações

Mais um prêmio que La La Land – Cantando Estações abocanhará sem muito esforço, visto que as trilhas dos concorrentes são esquecíveis ou mesmo azucrinantes, como no caso de Jackie.

cancao-original

Melhor Canção Original

Audition (The Fools Who Dream), de La La Land – Cantando Estações, Benj Pasek e Justin Paul (letra); Justin Hurwitz (música)
Can’t Stop the Feeling, de Trolls, letra e música de Justin Timberlake, Max Martin e Karl Johan Schuster
City of Stars, de La La Land – Cantando Estações, Benj Pasek e Justin Paul (letra); Justin Hurwitz (música)
The Empty Chair, de Jim – The James Foley Story, letra e música de J. Ralph e Sting
How Far I’ll Go, de Moana – Um Mar de Aventuras, letra e música de Lin-Manuel Miranda

Quem ganha: City of Stars, de La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Audition (The Fools Who Dream), de La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
Can’t Stop the Feeling, de Trolls

Exagerada a repercussão de City of Stars, mas o seu arcabouço formulaico tende a agradar mais os votantes da Academia. Já Audition (The Fools Who Dream) tem uma letra que se comunica muito mais com a mensagem central de La La Land – Cantando Estações, porém minha canção predileta é da animação Trolls, pelo ótimo vocal de Justin Timberlake e sua parceria com os hitmakers Max Martin e Karl Johan Schuster, produtor sueco mais conhecido como Shellback.

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Melhor Mixagem de Som

A Chegada, Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye
Até o Último Homem, Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace
La La Land – Cantando Estações, Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow
Rogue One – Uma História Star Wars, David Parker, Christopher Scarabosio e Stuart Wilson
13 Horas – Os Soldados Secretos de Benghazi, Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Mac Ruth

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Até o Último Homem
Quem eu gostaria que ganhasse:
Até o Último Homem

Filmes de guerra dificilmente são derrotados numa categoria onde a mixagem de som é criteriosamente analisada, mas acredito que a Academia deva optar pela cantoria de La La Land – Cantando Estações, beneficiando o filme nesse incessante acúmulo de prêmios.

edicao-de-efeitos-sonoros

Melhor Edição de Efeitos Sonoros

A Chegada, Sylvain Bellemare
Horizonte Profundo – Desastre no Golfo, Wylie Stateman e Renée Tondelli
Até o Último Homem, Robert Mackenzie e Andy Wright
La La Land – Cantando Estações, Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan
Sully – O Herói do Rio Hudson, Alan Robert Murray e Bub Asman

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Até o Último Homem
Quem eu gostaria que ganhasse:
Até o Último Homem

O longa de Mel Gibson tem a seu favor o fato de ser um filme de guerra; a profusão de sons concebidos na pós-produção é notória. Sendo a obra mais rica nesse aspecto, Até o Último Homem seria a escolha mais óbvia, mas a Academia tende a se render aos encantos de La La Land – Cantando Estações também nessa categoria.

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Melhores Efeitos Visuais

Horizonte Profundo – Desastre no Golfo, Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton
Doutor Estranho, Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould
Mogli – O Menino Lobo, Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon
Kubo e as Cordas Mágicas, Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff
Rogue One – Uma História Star Wars, John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould

Quem ganha: Mogli – O Menino Lobo
Quem merece:
Mogli – O Menino Lobo
Quem eu gostaria que ganhasse:
Kubo e as Cordas Mágicas

A grandiosidade de Mogli – O Menino Lobo se acentua graças aos efeitos visuais; fazendo bom uso desse aliado o filme deve levar o prêmio, mas a ampliação dos cenários de Kubo e as Cordas Mágicas realizada em CGI (Computer-generated imagery) me entusiasma muito mais. Ter uma animação nessa categoria é um fato que não ocorre há anos, desde que O Estranho Mundo de Jack (1993) integrou a lista.

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Melhor Maquiagem e Penteado

Um Homem Chamado Ove, Eva von Bahr e Love Larson
Star Trek – Sem Fronteiras, Joel Harlow e Richard Alonzo
Esquadrão Suicida, Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson

Quem ganha: Esquadrão Suicida
Quem merece:
Esquadrão Suicida
Quem eu gostaria que ganhasse:
Esquadrão Suicida

Não enxergo aqui nenhum filme digno de prêmio, mas dentre os selecionados pela Academia ainda opto pela afetação da maquiagem de Esquadrão Suicida, apenas por destacar melhor a construção visual dos personagens a partir do trabalho aplicado.

Dentro de alguns dias conheceremos os vencedores da 89ª edição do Oscar. Se minhas apostas coincidirem com as escolhas da Academia, La La Land – Cantando Estações levará 11 prêmios igualando-se ao recorde de filmes como O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), Titanic (1997) e Ben-Hur (1959), os maiores ganhadores da história da premiação. Agora só nos resta aguardar dia 26.02. Após a premiação publico apontamentos sobre a festa desse ano. Até lá!