A trajetória de um gângster

A Lei da Noite (Live by Night, 2016, direção de Ben Affleck)
Estreia no Brasil: 23/02/2017

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Por Thais Sawada

Com o intuito de prestar uma homenagem aos filmes de gângsteres da década de 1930, A Lei da Noite, baseado no livro homônimo de Dennis Lehane, conta a história de Joe Coughlin (Ben Affleck), um fora da lei filho de um capitão de polícia de Boston (Brendan Gleeson), que acaba se envolvendo com a máfia. Ambientado nos anos 20, o longa se passa em meio à Lei Seca americana – período em que era proibida toda a fabricação, comércio, transporte, exportação e importação de bebidas alcoólicas.

Assim, quando o mafioso Albert White (Robert Glenister) descobre que sua amante (Sienna Miller) mantinha um relacionamento secreto com Joe, ele não hesita em puni-los. Joe, então, une-se a Maso Pescatore (Remo Girone) e à máfia italiana, procurando vingança. A partir daí, ele torna-se o responsável pelas atividades ilegais do grupo na costa da Flórida, onde conhece Graciela (Zoe Saldana) e Loretta (Elle Fanning) – esta, filha do chefe Figgs (Chris Cooper). Durante a sua ascensão, Joe também se depara com rivalidades e confrontos com a Ku Klux Klan.

Assim, o espectador acompanha a trajetória de Joe. A história é interessante, com boas cenas de ação, e toda a ambientação, mostrando os Estados Unidos da década de 20, é um ponto positivo. A fotografia e o figurino merecem destaque, recriando a época com muita eficácia.

Entretanto, apesar de começar em um bom ritmo, A Lei da Noite esmaece no decorrer da trama. Os vários arcos e a grande quantidade de diálogos fazem com que o filme fique longo e cansativo. Personagens que poderiam ser bem explorados, são deixados de lado, como Graciela, que soa promissora em um primeiro momento, mas perde espaço na trama. O bom elenco, portanto, poderia ter sido melhor utilizado. Além disso, a própria premissa da vingança que Joe busca parece ser esquecida durante boa parte da obra.

Ben Affleck é aqui diretor, roteirista e protagonista. Em termos de atuação, seu trabalho não surpreende, mostrando uma certa falta de emoção e carisma. Mas, se Affleck por vezes deixa a desejar como ator, seu histórico mostra que o talento na direção, contudo, é inegável. Argo (2012), por exemplo, recebeu diversas premiações – inclusive o Oscar de Melhor Filme e o Globo de Ouro de Melhor Diretor. Infelizmente, A Lei da Noite, ao contrário do esperado, não alcançou as expectativas, deixando a sensação de que poderia ser muito mais do que apenas um filme interessante, mas que não ficará na memória.

Nota: 5

Oscar 2017 – Prevendo os vencedores

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Por Rodrigo Oliveira

A ansiedade toma conta dos cinéfilos mundo afora às vésperas do Oscar. Esse ano não seria diferente, pois a premiação que ocorrerá nesse domingo, 26.02, chega repleta de surpresas, algumas delas não muito positivas, como acontece quase sempre.

A 89ª edição resolveu reparar uma ausência tão discutida há um ano. Para quem não se lembra, a festa anterior foi envolta em polêmica devido à falta de profissionais negros entre os nomeados. Contudo, 2017 chega para exibir um quadro distinto, visto que filmes como Um Limite Entre Nós, Moonlight – Sob a Luz do Luar e Estrelas Além do Tempo, todos com elenco principal composto por atores negros, conseguiram espaço na categoria principal.

Em contrapartida, algumas ausências foram sentidas e destacarei três que considero inadmissíveis. Pensar em A Chegada sem a protagonista absoluta defendida por Amy Adams é algo impossível, não dá para dissociar. Não sou o maior admirador desse trabalho específico da atriz, mas acho que Meryl Streep ocupa um lugar que deveria ser de Adams na lista das cinco finalistas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas também pecou ao ignorar a animação Procurando Dory. Munido de uma história bem desenvolvida e personagens cativantes, o filme ainda prima pelo selo de qualidade Pixar, que dispensa apresentações; é no mínimo revoltante a obra ser esnobada dessa forma.

Por fim, na categoria que contempla as atuações masculinas num papel principal, o nome de Joel Edgerton não aparece entre as nomeações. O ator apresenta um trabalho de construção sutil, mas ao mesmo tempo bem delineado em Loving, belo filme sobre direitos civis, que deveria ter recebido mais atenção por parte dos membros votantes.

A festa desse ano fica a cargo do comediante e apresentador Jimmy Kimmel, que faz sua estreia no Oscar. Tendo como base o seu desempenho no Emmy Awards do ano passado, teremos uma performance não muito distinta da de Chris Rock, que esteve à frente da premiação de cinema em 2016. Portanto, um Oscar com um extenso monólogo de abertura e muita zombaria de distintos apelos nos aguarda. Já bateu saudade das edições comandadas por Hugh Jackman e Neil Patrick Harris, com números musicais divertidos e bem elaborados.

Disponibilizo abaixo as minhas apostas, todas seguidas de comentários. Ressalto que não incluo as categorias de curta-metragem, curta de animação e documentário tanto de longa quanto de curta-metragem, porque não tive acesso a todos os materiais.

filme

Melhor Filme

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion – Uma Jornada Para Casa
Moonlight – Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land – Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece: Manchester à Beira-Mar
Quem eu gostaria que ganhasse:
Manchester à Beira-Mar

A quantidade de prêmios que La La Land – Cantando Estações vem colecionando já o aponta como franco favorito à estatueta. Nada mais coeso que em tempos sombrios, ocasionados pela Era Trump, a Academia opte pelo escapismo do filme musical.

diretor

Melhor Diretor

Dennis Villeneuve, por A Chegada
Mel Gibson, por Até o Último Homem
Damien Chazelle, por La La Land – Cantando Estações
Kenneth Lonergan, por Manchester à Beira-Mar
Barry Jenkins, por Moonlight – Sob a Luz do Luar

Quem ganha: Damien Chazelle
Quem merece:
Kenneth Lonergan
Quem eu gostaria que ganhasse: Kenneth Lonergan

Com Whiplash – Em Busca da Perfeição, Damien Chazelle provou uma competência técnica marcante; isso se repete no plano sequência do início de La La Land – Cantando Estações. Com essa demonstração exibida logo no começo do longa, o jovem diretor revela ser minimamente merecedor do prêmio. Acho o trabalho de Kenneth Lonergan muito mais denso e complexo, mas Chazelle será o vencedor da categoria.

ator

Melhor Ator

Casey Affleck, por Manchester à Beira-Mar
Denzel Washington, por Um Limite Entre Nós
Ryan Gosling, por La La Land – Cantando Estações
Andrew Garfield, por Até o Último Homem
Viggo Mortensen, por Capitão Fantástico

Quem ganha: Casey Affleck
Quem merece: Casey Affleck
Quem eu gostaria que ganhasse: Casey Affleck

A maestria do trabalho de Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar é difícil de ser compreendida, justamente por ser um personagem interiorizado ao extremo e impregnado de sutilezas. Esse é o típico caso onde o menos é mais. E aqui o menos é avassalador. Mesmo perdendo o SAG para Denzel Washington, acredito que o Oscar não está fora do alcance de Affleck, visto que todos os outros prêmios foram parar em suas mãos.

atriz

Melhor Atriz

Natalie Portman, por Jackie
Emma Stone, por La La Land – Cantando Estações
Meryl Streep, por Florence – Quem é Essa Mulher?
Ruth Negga, por Loving
Isabelle Huppert, por Elle

Quem ganha: Emma Stone
Quem merece:
Isabelle Huppert
Quem eu gostaria que ganhasse:
Isabelle Huppert

A ausência de Elle na categoria de Melhor Filme Estrangeiro prova que a Academia tem certa resistência à obra. Esse fator desabilita a vitória de Isabelle Huppert. Uma pena ver a atriz perder o prêmio para Emma Stone, em atuação encantadora, mas sem o viço incomparável de Huppert, sempre excelente.

ator-coadjuvante

Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali, por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Jeff Bridges, por A Qualquer Custo
Lucas Hedges, por Manchester à Beira-Mar
Dev Patel, por Lion – Uma Jornada Para Casa
Michael Shannon, por Animais Noturnos

Quem ganha: Mahershala Ali
Quem merece:
Lucas Hedges
Quem eu gostaria que ganhasse:
Lucas Hedges

Acho a atuação de Mahershala Ali um tanto irregular em Moonlight – Sob a Luz do Luar, porém ele tem a seu favor o fato de estar em um filme cultuado pela crítica. Já o trabalho de Lucas Hedges merece elogios sem ressalvas, por transitar pelos mais variados temperamentos na pele de Patrick.

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Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis, por Um Limite Entre Nós
Naomi Harris, por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Nicole Kidman, por Lion – Uma Jornada Para Casa
Octavia Spencer, por Estrelas Além do Tempo
Michelle Williams, por Manchester à Beira-Mar

Quem ganha: Viola Davis
Quem merece: Michelle Williams
Quem eu gostaria que ganhasse: Michelle Williams

Analisando, até então, o histórico de premiações, é dada como certa a vitória de Viola Davis. Porém, Michelle Williams é responsável pelo momento ápice do filme de Lonergan, onde tudo o que estava encalacrado vem à tona. A sua emoção genuína entrega ao público um resultado consternador.

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Melhor Roteiro Original

La La Land – Cantando Estações, Damien Chazelle
Manchester à Beira-Mar, Kenneth Lonergan
A Qualquer Custo
, Taylor Sheridan
O Lagosta
, Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou
20th Century Women, Mike Mills

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece: Manchester à Beira-Mar
Quem eu gostaria que ganhasse: Manchester à Beira-Mar

Será um desprazer presenciar a vitória de Chazelle nessa categoria. Nada contra La La Land – Cantando Estações, mas tendo Manchester à Beira-Mar na disputa, o roteiro do musical não possui sequer uma sobrevida se comparado à estruturação naturalista dos diálogos do filme de Kenneth Lonergan.

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Melhor Roteiro Adaptado

Moonlight – Sob a Luz do Luar, Barry Jenkins
Lion – Uma Jornada Para Casa, Luke Davies
Um Limite Entre Nós, August Wilson
Estrelas Além do Tempo, Allison Schroeder e Theodore Melfi
A Chegada, Eric Heisserer

Quem ganha: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Quem merece:
Um Limite Entre Nós
Quem eu gostaria que ganhasse:
Um Limite Entre Nós

Considero essa a aposta mais arriscada. Moonlight – Sob a Luz do Luar e A Chegada são os filmes com maior chance nessa categoria, mas optei pelo primeiro visto a estima que os profissionais do meio e a crítica tem pelo longa, para mim incensado ao extremo. August Wilson fez um trabalho esmerado em Um Limite Entre Nós, mas deve passar despercebido na premiação.

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Melhor Filme Estrangeiro

Terra de Minas (Dinamarca)
Um Homem Chamado Ove (Suécia)
O Apartamento (Irã)
Tanna (Austrália)
Toni Erdmann (Alemanha)

Quem ganha: O Apartamento
Quem merece:
Um Homem Chamado Ove
Quem eu gostaria que ganhasse:
Um Homem Chamado Ove

Em 2012, Asghar Farhadi venceu esse prêmio pelo filme A Separação, levando um Oscar para o Irã. Esse ano a probabilidade desse feito acontecer novamente é grande, a não ser que a Academia perca o resto de seu bom senso ao entregar o Oscar para o néscio Toni Erdmann.

animacao

Melhor Animação

Kubo e as Cordas Mágicas
Moana – Um Mar de Aventuras
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia – Essa Cidade é o Bicho

Quem ganha: Zootopia – Essa Cidade é o Bicho
Quem merece: Minha Vida de Abobrinha
Quem eu gostaria que ganhasse:
Minha Vida de Abobrinha

Após vencer a categoria de Melhor Longa-Metragem no Annie Awards, Zootopia – Essa Cidade é o Bicho já desponta como favorito, porém nada me surpreendeu mais do que o trabalho em stop motion de Minha Vida de Abobrinha, definitivamente o melhor dos cinco.

fotografia

Melhor Fotografia

A Chegada, Bradford Young
La La Land – Cantando Estações, Linus Sandgren
Moonlight – Sob a Luz do Luar, James Laxton
Silêncio, Rodrigo Prieto
Lion – Uma Jornada Para Casa, Greig Fraser

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
La La Land – Cantando Estações

O plano sequência do início de La La Land – Cantando Estações já diz a que veio. Se tem algo que se destaca é a cena inicial, mas a fotografia mantém o alto nível de produção até em partes tecnicamente mais simples, como as com planos abertos, que ainda assim captam muito bem os deslocamentos durante os números musicais, devido à precisão do trabalho de movimentação de câmera. Linus Sandgren tem seu Oscar garantido.

edicao

Melhor Montagem

A Chegada, Joe Walker
Até o Último Homem, John Gilbert
A Qualquer Custo, Jake Roberts
La La Land – Cantando Estações, Tom Cross
Moonlight – Sob a Luz do Luar, Nate Sanders e Joi McMillon

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
A Qualquer Custo

O dinamismo de muitas cenas de La La Land – Cantando Estações é possibilitado pela montagem, ela dita o ritmo desses fragmentos do filme. Esse prêmio é, de fato, merecido. Nessa categoria não tem pra ninguém! Tom Cross ganhará o seu segundo Oscar, após ter vencido o prêmio por Whiplash – Em Busca da Perfeição.

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Melhor Direção de Arte

A Chegada, Patrice Vermette (Design de Produção); Paul Hotte (Decorador de Set)
Animais Fantásticos e Onde Habitam, Stuart Craig (Design de Produção); Anna Pinnock (Decoradora de Set)
Ave, César!, Jess Gonchor (Design de Produção); Nancy Haigh (Decoradora de Set)
La La Land – Cantando Estações, David Wasco (Design de Produção); Sandy Reynolds-Wasco (Decoradora de Set)
Passageiros, Guy Hendrix Dyas (Design de Produção); Gene Serdena (Decorador de Set)

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Quem eu gostaria que ganhasse:
Animais Fantásticos e Onde Habitam

Referenciar os musicais clássicos trazendo um frescor para essa ambiência tão venerada não é nada fácil, mas La La Land – Cantando Estações consegue isso graças à singularidade aparente mesmo ao transitar por códigos de outrora. Gosto do resultado apresentado no filme musical, mas a suntuosidade de Animais Fantásticos e Onde Habitam é imbatível, portanto deveria levar o prêmio.

figurino

Melhor Figurino

Aliados, Joanna Johnston
Animais Fantásticos e Onde Habitam, Colleen Atwood
Florence – Quem é Essa Mulher?, Consolata Boyle
Jackie, Madeline Fontaine
La La Land – Cantando Estações, Mary Zophres

Quem ganha: Jackie
Quem merece:
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Quem eu gostaria que ganhasse:
Animais Fantásticos e Onde Habitam

Não há uma indumentária sequer em Jackie que não auxilie na reconstituição da época; por ser tão fundamental nesse filme, o figurino de Madeline Fontaine sairá vencedor. Contudo, ainda acho o trabalho presente no universo fantástico do filme protagonizado por Eddie Redmayne mais pomposo.

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Melhor Trilha Sonora

Jackie, Mica Levi
La La Land – Cantando Estações, Justin Hurwitz
Moonlight – Sob a Luz do Luar, Nicholas Britell
Passageiros, Thomas Newman
Lion – Uma Jornada Para Casa, Dustin O’Halloran and Hauschka

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
La La Land – Cantando Estações

Mais um prêmio que La La Land – Cantando Estações abocanhará sem muito esforço, visto que as trilhas dos concorrentes são esquecíveis ou mesmo azucrinantes, como no caso de Jackie.

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Melhor Canção Original

Audition (The Fools Who Dream), de La La Land – Cantando Estações, Benj Pasek e Justin Paul (letra); Justin Hurwitz (música)
Can’t Stop the Feeling, de Trolls, letra e música de Justin Timberlake, Max Martin e Karl Johan Schuster
City of Stars, de La La Land – Cantando Estações, Benj Pasek e Justin Paul (letra); Justin Hurwitz (música)
The Empty Chair, de Jim – The James Foley Story, letra e música de J. Ralph e Sting
How Far I’ll Go, de Moana – Um Mar de Aventuras, letra e música de Lin-Manuel Miranda

Quem ganha: City of Stars, de La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Audition (The Fools Who Dream), de La La Land – Cantando Estações
Quem eu gostaria que ganhasse:
Can’t Stop the Feeling, de Trolls

Exagerada a repercussão de City of Stars, mas o seu arcabouço formulaico tende a agradar mais os votantes da Academia. Já Audition (The Fools Who Dream) tem uma letra que se comunica muito mais com a mensagem central de La La Land – Cantando Estações, porém minha canção predileta é da animação Trolls, pelo ótimo vocal de Justin Timberlake e sua parceria com os hitmakers Max Martin e Karl Johan Schuster, produtor sueco mais conhecido como Shellback.

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Melhor Mixagem de Som

A Chegada, Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye
Até o Último Homem, Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace
La La Land – Cantando Estações, Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow
Rogue One – Uma História Star Wars, David Parker, Christopher Scarabosio e Stuart Wilson
13 Horas – Os Soldados Secretos de Benghazi, Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Mac Ruth

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Até o Último Homem
Quem eu gostaria que ganhasse:
Até o Último Homem

Filmes de guerra dificilmente são derrotados numa categoria onde a mixagem de som é criteriosamente analisada, mas acredito que a Academia deva optar pela cantoria de La La Land – Cantando Estações, beneficiando o filme nesse incessante acúmulo de prêmios.

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Melhor Edição de Efeitos Sonoros

A Chegada, Sylvain Bellemare
Horizonte Profundo – Desastre no Golfo, Wylie Stateman e Renée Tondelli
Até o Último Homem, Robert Mackenzie e Andy Wright
La La Land – Cantando Estações, Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan
Sully – O Herói do Rio Hudson, Alan Robert Murray e Bub Asman

Quem ganha: La La Land – Cantando Estações
Quem merece:
Até o Último Homem
Quem eu gostaria que ganhasse:
Até o Último Homem

O longa de Mel Gibson tem a seu favor o fato de ser um filme de guerra; a profusão de sons concebidos na pós-produção é notória. Sendo a obra mais rica nesse aspecto, Até o Último Homem seria a escolha mais óbvia, mas a Academia tende a se render aos encantos de La La Land – Cantando Estações também nessa categoria.

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Melhores Efeitos Visuais

Horizonte Profundo – Desastre no Golfo, Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton
Doutor Estranho, Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould
Mogli – O Menino Lobo, Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon
Kubo e as Cordas Mágicas, Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff
Rogue One – Uma História Star Wars, John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould

Quem ganha: Mogli – O Menino Lobo
Quem merece:
Mogli – O Menino Lobo
Quem eu gostaria que ganhasse:
Kubo e as Cordas Mágicas

A grandiosidade de Mogli – O Menino Lobo se acentua graças aos efeitos visuais; fazendo bom uso desse aliado o filme deve levar o prêmio, mas a ampliação dos cenários de Kubo e as Cordas Mágicas realizada em CGI (Computer-generated imagery) me entusiasma muito mais. Ter uma animação nessa categoria é um fato que não ocorre há anos, desde que O Estranho Mundo de Jack (1993) integrou a lista.

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Melhor Maquiagem e Penteado

Um Homem Chamado Ove, Eva von Bahr e Love Larson
Star Trek – Sem Fronteiras, Joel Harlow e Richard Alonzo
Esquadrão Suicida, Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson

Quem ganha: Esquadrão Suicida
Quem merece:
Esquadrão Suicida
Quem eu gostaria que ganhasse:
Esquadrão Suicida

Não enxergo aqui nenhum filme digno de prêmio, mas dentre os selecionados pela Academia ainda opto pela afetação da maquiagem de Esquadrão Suicida, apenas por destacar melhor a construção visual dos personagens a partir do trabalho aplicado.

Dentro de alguns dias conheceremos os vencedores da 89ª edição do Oscar. Se minhas apostas coincidirem com as escolhas da Academia, La La Land – Cantando Estações levará 11 prêmios igualando-se ao recorde de filmes como O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), Titanic (1997) e Ben-Hur (1959), os maiores ganhadores da história da premiação. Agora só nos resta aguardar dia 26.02. Após a premiação publico apontamentos sobre a festa desse ano. Até lá!

Construindo Gotham com bom humor

LEGO Batman – O Filme (The LEGO Batman Movie, 2017, direção de Chris McKay)
Estreia no Brasil: 09/02/2017

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Por Thais Sawada

Depois do sucesso de Uma Aventura LEGO (2014), que misturou diversos personagens que fazem parte do universo dos bloquinhos de montar, chega agora aos cinemas LEGO Batman – O Filme. Um dos destaques do longa anterior, o Homem-Morcego, misterioso defensor de Gotham, é dessa vez o protagonista.

Apesar de toda a fama e atenção que recebe dos moradores da cidade, Batman é também extremamente solitário, vivendo melancolicamente em sua mansão, assistindo a comédias românticas e comendo lagostas esquentadas no micro-ondas. Acostumado a trabalhar sozinho e ressentido pelo fim trágico que levou sua família, as coisas começam a mudar quando a comissária Bárbara Gordon resolve fazer com que Batman e a força policial sejam uma equipe. Além disso, Bruce Wayne repentinamente se vê tendo o jovem órfão Dick Grayson como filho adotivo.

Em meio a tudo isso, Coringa procura uma forma de provar que ele é o arqui-inimigo do Homem-Morcego. Para isso, conta com todos os outros vilões de Gotham e cria um plano que envolve até mesmo a Zona Fantasma (sim, estamos falando da prisão do universo do Super-Homem).

LEGO Batman consegue unir o aspecto sombrio de Gotham ao divertido universo dos blocos de montar, criando um visual bastante divertido – assim como já havia sido feito no longa anterior. Todos os gestos dos personagens são realizados como se realmente fossem bonequinhos sendo movimentados.

O bom humor é outra marca que também segue o caminho deixado por Uma Aventura LEGO. Algumas piadas funcionam muito bem – desde o início, com o surgimento dos logos que antecedem o filme, a animação causa risadas e deixa uma boa expectativa. Entretanto, outras parecem forçadas demais e vão perdendo a força ao longo da trama, ficando até mesmo um tanto repetitivas. Além disso, o roteiro também chega a ser cansativo e previsível em alguns momentos.

Contudo, um dos pontos positivos são as referências que permeiam toda a produção. Neste ponto, os fãs mais velhos provavelmente se divertirão mais do que as crianças, já que o filme conversa várias vezes com longas e séries passados do Homem-Morcego – partindo dos anos 60 e chegando ao mais recente Batman Vs Superman – A Origem da Justiça. Mas as referências não se restringem aos universo da DC Comics: Voldemort, Sauron e Godzilla são apenas alguns dos outros nomes que aparecem ali.

Além de abordar a relação entre Batman e Coringa de uma forma inusitada, LEGO Batman mostra um Homem-Morcego que precisa aprender a trabalhar em equipe e a confiar nos outros. Junto com o visual divertido e todo o tom bem-humorado, tem atrativos tanto para as crianças quanto para os fãs do defensor de Gotham. No entanto, peca ao exagerar nas tentativas de arrancar risadas dos espectadores, tornando o longa um tanto cansativo.

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Nota: 6

Cavidades emocionais oriundas da infância

Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie de Courgette, 2016, direção de Claude Barras)
Estreia no Brasil: 02/02/2017

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Por Rodrigo Oliveira

A afamada expressão “falar abobrinha” diz respeito a uma construção de discurso sem nexo ou a um palavreado regado a asneiras. Por causa de seu título, a animação “Minha Vida de Abobrinha”, indicada ao Oscar 2017, dá a entender que a sua narrativa tende a buscar recursos nesse tipo de construção pastelóide, mas já adianto que se engana redondamente quem torce o nariz para a obra devido a seu ‘nome de batismo’.

No decorrer da infância o experienciar transita por lugares muitas vezes bloqueados na vida adulta; estamos tão empedernidos com dilemas rotineiros que eles nos estagnam num constante automatismo. O filme de Claude Barras nos ajuda a detectar a singularidade dessa fase da vida a partir de seu protagonista, Icare, ou melhor, Abobrinha, nome pelo qual prefere ser chamado.

Após a morte de sua mãe, o garoto é encaminhado a um orfanato pelo policial Raymond, figura que aos poucos se torna mais presente. Lá, ele de início é vítima de bullying por parte de Simon, o líder das crianças, mas logo se enturma com todos, principalmente ao descobrir os traumas pessoais de cada um, relatados pelo próprio “cabeça” da trupe, rompendo assim com o seu comportamento intimidador.

A animação nos mostra a proporção que as pequenas coisas da vida podem ganhar através do olhar de uma criança, como a forma de encarar a deserção e se recuperar com ajuda da imaginação, que se transforma numa forte aliada na criação de um mundo à parte, um tanto fugidio, mas que ao mesmo tempo rememora o passado de forma doce – o desenho do pai, na pipa de Abobrinha, simboliza bem isso.

O stop motion é de uma finura invejável, estabelecendo vínculo direto com a delicadeza da história. A técnica se destaca especialmente nos instantes em que as crianças estão fora do orfanato; os momentos de ação, muitos deles concentrados nas cenas da viagem contida no enredo, destacam os movimentos dos personagens, ressaltando a precisão característica do trabalho.

“Minha Vida de Abobrinha” nos permite refletir sobre a real necessidade de abandonar o que é supérfluo, por meio do exercício de priorização de valores inerentes ao núcleo familiar e às autênticas amizades. Pode soar meloso ou até mesmo clichê esse arremate, mas antes isso do que proferir abobrinhas ou incoerências sobre uma obra que consegue incitar a pureza. A produção atinge os espectadores em incursão envolvente pelas cavidades emocionais oriundas da infância, numa perspectiva bem fixada nesse período tão particular da vida.

Nota: 9 

Imperícias além da conta

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016, direção de Theodore Melfi)
Estreia no Brasil: 02/02/2017

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Por Rodrigo Oliveira

Segregação racial e conquista de direitos civis. Quantos filmes já assistimos ou ao menos ouvimos falar sobre o assunto? De registros ficcionais, nos últimos anos temos Selma – Uma Luta Pela Igualdade (2014), o vencedor do Oscar 12 Anos de Escravidão (2013) e O Grande Debate (2007). Isso sem contar A Décima Terceira Emenda (2016), recente documentário de Ava DuVernay, diretora da primeira das obras citadas acima. Além da temática, todas essas produções tem outro ponto em comum: a capacidade imediata de tocar os espectadores, seja por identificação ou até mesmo por compaixão, devido à luta travada pelos personagens.

Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho, 2014), possui todos esses elementos, porém elimina o forte potencial de seu tema – apesar do desgaste da abordagem – por buscar amparo em arquétipos que empobrecem a sua narrativa.

Baseado no livro de Margot Lee Shetterly, o filme nos apresenta os bastidores de um momento de forte impacto na história dos EUA: a corrida espacial sucedida durante a Guerra Fria. A National Aeronautics and Space Administration, conhecida amplamente como NASA, sempre deixou transparecer o seu aspecto corporativo austero e isso é endossado quando conhecemos Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três funcionárias negras da agência federal americana, que em meio a cálculos, fórmulas e ameaças internas veladas precisam provar a cada dia não somente o seu know how, mas ir além, assim como os homens que ajudaram a mandar para o espaço.

No decorrer da obra identificamos enormes problemas, como o investimento na construção de arquétipos responsáveis por enfatizar o caricatural; temos o nerd com traços vilanescos (Jim Parsons), rivalizando com uma das protagonistas por viabilizar o trabalho de uma maneira que ele não consegue, a funcionária branca hierarquicamente superior (Kirsten Dunst), que não enxerga a própria discriminação e o chefe apaziguador (Kevin Costner), que após ter conhecimento do trajeto enfrentado por Katherine para chegar a um banheiro destinado a negros, acaba com o comportamento exclusor vigente, exibindo a “benevolência” de sua atitude. Uma pena que as deficiências do longa não parem por aí.

Tendo mulheres negras como centro da narrativa, damos de cara com Histórias Cruzadas (Tate Taylor, 2011), que devido a seu elenco tende a causar unânime consternação nos espectadores. É inevitável não atribuir comparações entre as obras pelas similitudes apresentadas, porém o filme de Taylor expõe mulheres negras em posições subalternas, quando não aviltadas, ignoradas pelas patroas, ou seja, diante da projeção estamos fadados ao lugar-comum, assistimos ao que estamos fatigados de ver.

Estrelas Além do Tempo tem ao menos um ponto a seu favor: o retrato da mulher que possui a coragem necessária para se colocar, focando na questão do empoderamento feminino, discussão atual que migra pelas mais diversas bocas. Somos surpreendidos pela história dessas mulheres audaciosas, história essa que poderia morrer no anonimato.

Melfi conduz um longa-metragem repleto de rebarbas, visto a irregularidade das atuações – Octavia Spencer com trejeitos e inflexões repetitivas é a mais evidente. Ademais, o acabamento também inexiste nessa narrativa paupérrima, onde somos obrigados a lidar com ações quase infantilizadas dos personagens, como na cena em que as amigas empurram a todo custo Katherine para Jim Johnson (Mahershala Ali) e obviamente o enlace se concretiza.

Em um filme onde notamos tamanha escassez de refinamento, a ausência de sutileza é apenas mais uma das imperícias cometidas, aqui muito além da conta.

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Nota: 4.5

Gatilho caipira

A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016, direção de David Mackenzie)
Estreia no Brasil: 02/02/2017

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Por Rodrigo Oliveira

Algumas produções têm características bem definidas em relação ao gênero pelo qual transitam, outras nem tanto. A Qualquer Custo, de David Mackenzie (Sentidos do Amor, 2011) se encontra nessa segunda categoria e garanto que isso só o enriquece. A obra dialoga e muito com as chamadas narrativas criminais, ao mesmo tempo que se firma pelas sequências características de filmes de ação, principalmente pelas cenas de perseguição, além de exibir alguns aspectos de faroeste, por se passar em regiões fronteiriças.

Nesse contexto geográfico somos apresentados a Toby (Chris Pine), que encurralado pela ex-mulher Debbie (Marin Ireland), encontra na execução de delitos um modo de quitar pendências financeiras relacionadas a seus dois filhos, além de dessa maneira conseguir pagar a hipoteca do rancho deixado por sua falecida mãe, afundada em juros. Ele pratica as infrações ao lado do irmão Tanner (Ben Foster), sujeito munido de uma agressividade latente mesclada a atitudes tresloucadas.

Assaltos a bancos, em cidadezinhas do Texas e de Oklahoma, são a forma de acumular algum dinheiro para resolver os problemas das finanças, mas o triunfo dos crimes nem sempre ocorrerá, visto que terão em seu encalço o xerife Marcus Hamilton (Jeff Bridges, notável por seu preciso sotaque) e seu colega Alberto Parker (Gil Birmingham).

A dinâmica presente nas cenas é possibilitada pelos longos planos propostos por Mackenzie, mas o longa tende a se aquietar. Não é por acaso que o roteiro de Taylor Sheridan (Sicario – Terra de Ninguém, 2015) adiciona à trama de ação, marcada por uma câmera irrequieta, momentos de contemplação que nos possibilitam enxergar as distintas formas de recepção do amor fraterno existente entre Tanner e Toby e de como isso se equipara às demonstrações de companheirismo propiciadas por Hamilton e Alberto, visto que a relação transcende a conivência profissional.

Percepções como essas nos afastam da aspereza das ações presentes em muitas sequências; aspereza essa potencializada pela aridez da região onde a história se passa, fato que torna essas cidadezinhas uma extensão dos personagens. Entretanto, nos rincões mais inacessíveis de suas delinquências encontramos humanidade, mesmo que espalhada em meio à rudeza.

A Qualquer Custo também ganha densidade ao mostrar os EUA de uma forma que não estamos acostumados a ver, gerando um distanciamento da imagem de grande potência ao exibir um país ao relento, marginalizado pela situação desses personagens concebidos pela audácia de um trabalho de roteiro e de direção tão afinado.

Mackenzie exibe o tino de sua direção em um filme dinâmico que nos transporta para regiões ermas, que se assemelham a um imenso desfiladeiro sinestésico. Presenciamos somente disparos certeiros, provenientes do rigor e da versatilidade desse gatilho caipira.

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Nota: 9.5

O silêncio das falésias

Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea, 2016, direção de Kenneth Lonergan)
Estreia no Brasil: 19/01/2017

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Por Rodrigo Oliveira

…We can’t take back
What is done, what is past
So fellas, lay down your fears
‘Cause we can’t take back
What is done, what is past
So let us start from here…

Trusty and True, de Damien Rice

 Prólogo

Nem todas as pessoas possuem a habilidade de encarar de frente situações-limite; sair ileso delas então seria mais que um privilégio, diria um milagre. Algumas vezes a solução é nos blindar diante dos desconfortos da vida, mas empurrar a sujeira para debaixo do tapete é o mesmo que retardar o inevitável. Em Manchester à Beira-Mar a sujeira está aparente e vamos ter que lidar com ela.

Em meio ao sacolejar de águas frias, Kenneth Lonergan (Conte Comigo, 2000 e Margaret, 2011) nos requisita para acompanharmos intimamente os desdobramentos do luto, em uma jornada que contempla também as mortes simbólicas que sofremos ao longo da vida.

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Boston <–> Manchester by-the-Sea

Boston, onde pequenos consertos são concluídos, mas grandes pendências emocionais se estabelecem. Essa é a realidade encarada por Lee (Casey Affleck), uma espécie de zelador pouco dado a afetos, que não faz questão alguma de socializar, escondendo-se atrás de tragos de bebidas.

Uma ligação, um segundo para digerir a informação e partir. Rumo à cidade que consta no título do filme, Lee vai de encontro ao corpo de Joe (Kyle Chandler), seu irmão falecido em decorrência de uma parada cardíaca. Como se a morte do ente querido não fosse o bastante, ele ainda terá de passar por novas provações e por  reencontros dilacerantes.

Do dia para a noite, Lee descobre ser o responsável legal pelo sobrinho Patrick (vivivdo por Ben O’Brien quando criança e por Lucas Hedges na adolescência), garoto com uma vida social bastante ativa – isso inclui duas namoradas. Ele não recebe bem a notícia de atuar como tutor do sobrinho, até porque não está em seus planos voltar para a cidade que lhe traz amargas recordações, dentre elas a relação construída com Randi (Michelle Williams), sua ex-mulher, cuja história que gerou o término do relacionamento contém um episódio trágico.

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Morte simbólica

Um choque profundo é perceber a obstinação dos personagens em orbitar por um mundo do qual não fazem mais parte. Eles se vestem a caráter para uma festa que nunca foram convidados oficialmente.

O desenvolvimento da história nos permite diagnosticar isso quando Lee retorna à cidade e não consegue estabalecer laços de nenhum tipo com tudo que diz respeito àquela localidade. Outro exemplo presente na obra é quando Patrick quer se inserir na vida da mãe Elise (Gretchen Mol), marcada por um passado de negligência familiar, mas que vive sob outra perspectiva, porém se encontra em um mundo onde não há lugar para ele. E por fim, quando Randi, focada em um novo capítulo de sua vida, que engloba incluisve a chegada de um novo bebê, ao reencontrar Lee, prolonga uma conversa que não deveria passar de um cumprimento para selar a cordialidade entre o ex-casal.

Apesar das mortes simbólicas que todos sofreram, a superação, que cabe aqui como uma forma de renascimento para seguirem em frente, não se instaurou de modo pleno. Alguns resquícios do passado são evidentes e exibem o que a princípio pode parecer uma estupidez que tange o boçal, todavia isso nada mais é o ponto que evidencia o caráter humano do filme de Lonergan. Ele conta uma história onde acompanhamos a vida de pessoas sendo simplesmente pessoas. Que lindo conseguir apreciar algo tão singelo e ao mesmo tempo de uma densidade narrativa tão enraizada no âmago de cada indivíduo de maneira única.

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Sinuosidades narrativas

O cotidiano tem o dom de esmaecer o fascínio das coisas e isso se reflete no roteiro de Kenneth Lonergan, visto que o filme tem como missão prezar pelo tratamento do corriqueiro, isto é, provocar a trivialidade a ponto de levá-la a outra instância por meio de seu conteúdo textual. Ele espelha em cada palavra uma consequência que levará o longa a ações ordinárias que vão nos desconcertar graças à crueza das situações.

Em julho de 1953, um texto do crítico André Bazin foi publicado na Revista francesa Esprit, contendo uma análise do filme As Férias do Sr. Hulot (Les Vacances de M. Hulot, Jacques Tati, 1953), onde menciona o seguinte sobre a obra: “Os diálogos não são de modo algum incompreensíveis, são insignificantes, e sua insignificância é revelada por sua própria precisão”.

O diretor/roteirista deixa tudo em seu devido lugar. Doses cavalares de subtextos aqui não cabem (elas aparecerão, mas de forma comedida, afinal as entrelinhas agregam densidade ao modus operandi do texto) e devemos nos orgulhar desse planejado inacabamento. Isso mesmo, muitos confundirão a irrefutável destreza de Lonergan de acessar os mais distintos recônditos de seus personagens, através do naturalismo de seu texto, com a equivocada ideia de que os diálogos formatem um ser humano real, sendo que o objetivo – aqui alcançado com sucesso – é que eles sejam responsáveis por apresentar as pessoas como uma metáfora da natureza humana.

Em Manchester à Beira-Mar se unem ao expertise de seu realizador, o humor e o silêncio, este último comunica muito, servindo em vários momentos como respiro após o ápice dramático de algumas sequências. Em suma, a insignificância dos diálogos do filme de Tati, mencionada por Bazin, aqui é associada a ações banais do cotidiano que revelam muito do que está por vir e do que cada universo particular dos personagens tem a nos oferecer.

Uma centelha é lançada e saberemos a consequência da faísca no exato momento da resolução; afinal estamos falando de um filme que obedece algumas fórmulas de enredos clássicos e obtém êxito, alcançando a precisão citada por Bazin, não só através do método, mas devido também à entrega e ao nível de comprometimento com a evolução narrativa de cada uma dessas vidas interiores.

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O tempo… aquele que está em toda parte

O filme é “a única experiência em que o tempo me é dado como uma percepção”. Jean Louis Schefer, filósofo, crítico de arte e teórico de cinema nos apresenta tal citação em seu livro Images Mobiles (1999, P.O.L). Portanto, ver um filme é ver o tempo passar. Manchester à Beira-Mar é também uma obra sobre o tempo, porém não somente o tempo biológico, aquele que controlamos em um plano físico, mas a respeito de um encadeamento de situações em que só podemos ter as rédeas diante do consentimento de nosso próprio tempo. Lonergan nos apresenta aqui o tempo enquanto limite.

Motivados por situações que solicitam algum tipo de movimento de nossa parte, ficamos à espreita para compreender o domínio das adversidades. No longa-metragem, elas soam incorrigíveis a todos os personagens, pelo teor do drama que cabe a cada um deles – e aqui menciono drama como aquilo que não está descarregado de acesso. Aqui há munição e muita. O disparo é uma questão de tempo. A fala, a ausência da mesma e o quando agir estão tomados pelo tempo.

O filme gira em torno disso até mesmo se nos concentrarmos na questão da espacialização, em como o externo a olhos nus é de causar distanciamento pelo clima hostil (de imediato sentimos o ar gélido invadindo o território das ramas secas), sequência que soa como um prólogo antes de sermos apresentados a Patrick, dentro de uma diegese composta por uma pista de hóquei.

Essa frieza compõe não só o campo imagético, mas colide com a aparente frieza – ou falta de articulação – do personagem, que vai desmistificar essa impressão incipiente a partir do tempo que lhe é proporcionado, exposto por meio de planos que ajudam na construção de metáforas e através do roteiro que auxilia nessa descoberta.

As rupturas temporais que nos transportam ao passado são outro fator que colaboram para arrematar a importância dessa temática, visto que, a princípio, o passado é a única certeza na história, fixar ali é uma garantia, portanto ele pode soar até mesmo como uma justificativa para o momento em que Lee diz não conseguir superar. Está tudo bem, algumas questões são insuperáveis, até certo tempo, claro. Notem, o tempo está em toda parte.

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A técnica (atuação, montagem e fotografia)

A obra de Lonergan abre espaço também para exibir as atitudes de personagens que se tornaram àsperos devido a acontecimentos de outrora. Aqui o ‘se tornaram’ requer atenção, visto que estamos falando de um filme que encontra nas minúcias o lugar ideal para instaurar o seu cerne: a incapacidade de se transformar, não em todos, mas em alguns aspectos.

Essa incapacidade, porém, não se reflete no trabalho dos atores. Muito pelo contrário, é justamente essa profusão de sentimentos emperrados, que estagnam a vida dos personagens, a razão possibilitadora de atuações impactantes. Casey Affleck apresenta um gestual tão contido quanto a sua expressão ao falar; macambúzio ao extremo ele entrega um desempenho de causar desalento ao dar vida a um homem que vive à sombra de seu latente desnorteio.

Michelle Williams atrai todos os olhares para si em uma cena específica onde há muito a se dizer, mas tudo parece ser retirado a fórceps de dentro de Randi; é como se houvesse a impossibilidade de palavras serem ditas de maneira branda, portanto são expelidas com tremenda dificuldade em forma de declaração penosa.

O resultado do trabalho dos atores é beneficiado pelo arremate inviolável propiciado pela montagem de Jennifer Lame e pela fotografia de Jody Lee Lipes. A primeira dosa bem as marcações de acontecimentos, visto que se trata de uma narrativa não linear, beneficiando não só a fluidez da história, mas tornando mais acessível a conexão do espectador com os personagens nas distintas fases de suas vidas. Já o aspecto frio da fotografia de Lipes ajuda a realçar o abatimento deles, mesmo que em alguns planos a cidade também se torne um dos focos da cena.

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Epílogo

Os personagens criados por Lonergan são como falésias, tendo os seus sedimentos inertes ao nível do mar. Nem todo movimento deles conflui para uma alteração de rota que, de fato, justifique uma mudança. Eles são vítimas de sua própria erosão interior.

O mar revolto acelera o desgaste das falésias. À beira-mar ou não, Lee, Randi e Patrick jamais estarão safos da ação do tempo que essa intempérie é capaz de causar. Falésias fadadas ao desgaste, mas que com o esteio do tempo serão redimidas pelo silêncio.

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Nota: 10